Cunnus

Cunnus

domingo, dezembro 11, 2005

Mania de Você

Meu bem você me dá
Água na boca
Vestindo fantasias, tirando a roupa
Molhada de suor
De tanto a gente se beijar
De tanto imaginar loucuras

A gente faz amor por telepatia
No chão, no mar, na lua, na melodia
Mania de você
De tanto a gente se beijar
De tanto imaginar loucuras

Nada melhor do que não fazer nada
Só pra deitar e rolar com você

Rita Lee

segunda-feira, novembro 14, 2005

Joguete Direito (Espécie de Escárnio)

Cantiga que o autor fez a Pero Rodrigues Grongelete acerca da sua mulher “que havia prez que lhe fazia torto” (que era acusada de o trair)

Pero Rodrigues, da vossa mulher,
não acrediteis no mal que vos digam.
Tenho eu a certeza que muito vos quer.
Quem tal não disser quer fazer intriga.
Sabei que outro dia quando eu a fodia,
enquanto gozava, pelo que dizia,
muito me mostrava que era vossa amiga.

Se vos deu o céu mulher tão leal,
que vos não agaste qualquer picardia,
pois mente quem dela vos for dizer mal.
Sabei que lhe ouvi jurar outro dia
que vos estimava mais do que a ninguém;
e para mostrar quanto vos quer bem,
fodendo comigo assim me dizia.

Martim Soares

O que se faz a dois...

Gosto de pensar que vivemos numa sociedade permissiva do ponto de vista da privacidade individual. Claro está que esta privacidade só pode ser mantida se o próprio indivíduo fizer um esforço (sim, porque nos dias que correm é preciso fazer um esforço para esquivar as diversas tentativas dos media, principalmente a televisão, de tornarem os ilustres anónimos em ilustres qualquer outra coisa), dizia eu, se o próprio indivíduo fizer um esforço por se manter “no escuro”. É evidente que, quando o cidadão pretende fazer-se notar (por vezes por caminhos demasiado tortuosos e incompreensíveis) se torna difícil escapar ao “chacotério” geral.

Tal é o caso de algumas figuras com quem convivo por vezes (e, impede-me a autocrítica de me excluir, é também o meu caso quando, porventura, sob o efeito de uma euforia extrema, aliada, ou não, a substâncias desinibidoras, digo o que não devo e, pior, a quem não devo – todos temos os nossos “momentos de glória”) dando azo a comentários que exprimem o espanto (e desagrado?) geral.

Ora, a situação torna-se ainda mais bizarra quando o tema é sexo. Entre muito risinho abafado e olhares de soslaio lá se vão largando as deixas que fulano, beltrano ou sicrano, num raro momento de excesso de zelo (e de informação) debitou em ouvidos pouco preparados para tais confissões. Pois bem, ditos há que a cultura portuguesa interpreta de forma antagónica. Por exemplo, virtudes públicas e vícios privados, haveria de querer dizer (passo a perversidade que ao longo da história acompanha a expressão) o que fazes em casa não o venhas contar para a rua.

Mas a verdade é que, pelo menos em Portugal, isto é a chamada “prata da casa” (e, nalguns casos, que prata, senhores!). Eu não sei se por querer brilhar no panteão do macho latino (com todas as características que lhe são inerentes) ou por uma necessidade impensada (e friso impensada porque há quem se dê verdadeiramente à morte, tendo por fito apenas sobressair entre os seus pares) de se sentir inserido num meio onde praticamente toda a gente larga uns comentários de uma forma razoavelmente inofensiva e até mesmo social.

Acontece que, quando o comentário ultrapassa as medidas que o seu produtor previu, e isto é fácil de verificar pelo ar de espanto e mutismo dos interlocutores, fica-se com a nítida noção de que já se fez asneira da grossa. E daí, há quem não se toque e prossiga. O meu conselho é o seguinte: o que se faz a dois (ou três, ou quatro, ou quantos sejam), não se conta a três (ou quatro, ou cinco, etc.) principalmente quando são temas do foro íntimo.
Aos demais só me resta dizer, não sejais tão prestos a criticar os gostos dos outros, porque às vezes a vida reserva-nos surpresas e aquilo que jamais fariamos parece-nos, de repente, bastante apetecível. Além do mais, gostos são gostos, não se discutem, porventura lamentam-se.

domingo, outubro 23, 2005

Cantiga de Amor

Cantiga de Amor
Em forma de Cantiga de Vilão


A donzela de Biscaia,
ainda ao meu encontro saia,
de noite ao luar!

Se ela agora me desdenha,
ainda ao meu encontro venha,
de noite ao luar!

Pois se agora me amesquinha,
que me apareça sozinha,
de noite ao luar!

Rui Pais de Ribela
De Diogo Fogaça a uma dama muito gorda, que se encostou a ele, e caíram ambos, e ele disse-lhe sobre isso umas palavras.

Rifão

Que gentil feição de damas,
não sei como vo-lo diga,
que tudo é cu e mamas
e barriga.

As mamas dão pelo ventre,
o ventre pelos joelhos,
e do cu até aos artelhos
gordura sobresselente.
Arrenego de tais damas,
é forçado que o diga,
porque tudo é cu e mamas
e barriga.

Corrigiram-na mui bem,
pero foi com muita pena,
porque lhe fizeram querena
no rio de Sacavém.
Revolta de ambas as camas,
isto com muita fadiga,
porque tudo é cu e mamas
e barriga.

Corrgiram-lhe o costado,
mas a quilha ficou podre.
Remendaram-lhe com um odre
do avesso tosquiado.
E com três peles de gamas,
muita estopa de estriga,
porque tudo é cu e mamas
e barriga.

Não prestou calafetar,
porque faz água profundo,
já não há crespim no mundo
que lha pudesse vedar.
Ao diabo dou tais damas,
é forçado que o diga,
porque tudo é cu e mamas
e barriga.

Cabo

Mas quebraram-lhe as estoras,
encostou-se sobre mim,
teve debaixo crespim
bem acerca de três horas.
Já renegava das damas,
saio com muita fadiga
debaixo de cu e mamas
e barriga.

Diogo Fogaça

Joguete Direito

(Espécie de Escárnio)

Cantiga que o autor fez a Pero Rodrigues Grongelete acerca da sua mulher “que havia prez que lhe fazia torto” (que era acusada de o trair)

Pero Rodrigues, da vossa mulher,
não acrediteis no mal que vos digam.
Tenho eu a certeza que muito vos quer.
Quem tal não disser quer fazer intriga.
Sabei que outro dia quando eu a fodia,
enquanto gozava, pelo que dizia,
muito me mostrava que era vossa amiga.

Se vos deu o céu mulher tão leal,
que vos não agaste qualquer picardia,
pois mente quem dela vos for dizer mal.
Sabei que lhe ouvi jurar outro dia
que vos estimava mais do que a ninguém;
e para mostrar quanto vos quer bem,
fodendo comigo assim me dizia.

Martim Soares

Proh Pudor

Todas as noites ela me cingia
nos braços, com brandura gasalhosa;
todas as noites eu adormecia,
sentindo-a desleixada e langorosa.
Todas as noites uma fantasia
lhe emanava da fronte imaginosa;
todas as noites tinha uma mania
aquela concepção vertiginosa.
Agora, há quase um mês, moderadamente,
ela tinha um furor dos mais soturnos,
furor original, impertinente…
Todas as noites ela, ó sordidez!,
descalçava-me as botas, os coturnos
e fazia-me cócegas nos pés…

Cesário Verde

A Masturbação

Não acho normal que a masturbação continue a ser vista por alguns (muito poucos, espero) como um acto impuro ou pouco digno.

Diga-se de passagem que não acho normal que as pessoas não se masturbem. Também me custa a perceber aqueles que vêm a masturbação como um prazer exclusivamente solitário, um mero sucedâneo do sexo a dois. Aliás, acho-o tão pouco normal que só me apercebi desta filosofia há pouco tempo atrás (ingénua!?) quando um dos nossos canais nacionais de televisão, núcleo duro da cultura popular, nos brindou com uma série de testemunhos verídicos, recolhidos entre o seu público alvo, sobre o acto da masturbação. Um deles era o de uma senhora que a aceitava bem mas não era praticante porque, tendo ela uma relação estável, não tinha necessidade de fazê-lo.

Eu eu pergunto: porquê? Será que o companheiro de tal fêmea nunca desejou vê-la masturbar-se? Será que ela nunca o fez ao seu lado enquanto ele dormia (ou fingia) em noites em que o sexo não a satisfez ou era inexistente? Não sentiu o prazer de se mastubar com o(s) dedo(s) do(s) pé(s) do outro, lambendo o seu próprio sabor em seguida? Nunca se veio assim? Pois devia! Ou pelo menos experimentar.

Devia tentar ver-se de pernas abertas, reflectida no espelho, de preferência um grande para que possa dar-se conta do seu prazer – é muito excitante ver o prazer que damos ao outro, mesmo que esse outro sejamos nós próprios. Olhar para si e ver como a sua postura muda consoante as nuances do seu gozo, as posições que escolhe, aquelas que lhe dão melhor acesso ao olhar, à(s) mão(s) e/ou artefactos, aperceber-se da tradução visual do que já sabia sensorialmente, ver onde e como tocar-se, onde e como deseja ser tocada, sem pressa, sem necessidade de ceder ao primeiro impulso do orgasmo, protelando-o vezes sem conta, até ao momento em que fecha os olhos e a onda imensa a prostra por terra.

De pernas bambas e a respiração quase ofegante, abrir os olhos e ver-se, saciada, tranquila, ainda de pernas abertas expondo o prazer recente, o seu prazer, o mimo que se deu, tão diferente dos que os outros lhe podem dar. Encarar a sua imagem no espelho, olhar dentros dos seus próprios olhos e sentir a força de não ter vergonha de si mesma.